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Como eu faço para morar na Itália?

19 Maio

Meudeusdocéu, quanto tempo! Não tinha me dado conta de que não escrevia no blog há mais de seis meses. Tenho que correr atrás do prejuízo agora. Tenho muita coisa para compartilhar, principalmente com as pessoas que estão pensando em vir para a Itália. Recebi alguns comentários e me sinto na obrigação de dividir o meu conhecimento com vocês.

Bom, as informações básicas vocês podem encontrar no post “A buRRocracia italiana”. Vou tentar me aprofundar no post de hoje.

Como todos sabem, a Itália como quase a metade da Europa está passando por uma crise econômica terrível. Eu, com a minha ignorância no assunto, compararia com a crise que os nossos pais passaram nos anos 80 no Brasil. Inflação alta, salários estagnados, crédito bloqueado e muito, muito desemprego.

O desemprego é um problema grave e afeta jovens, mulheres e pessoas de meia idade. Muitos recém-formados não conseguem se inserir no mercado de trabalho ou, quando conseguem, são com os chamados tirocini, estágios que pagam um salário de fome. E levando em consideração que esses jovens têm idade média de 24, 25 anos – e que na sua maioria nunca trabalharam porque aqui isso é muito comum, se estuda e ponto – os salários pagos para estes iniciantes dão vontade de chorar.

Depois vem as mulheres, que após terem filhos e ficarem um tempo em casa encontram dificuldade em tornar ao mercado de trabalho.

Last but not least as pessoas de meia idade (45 – 50) que perdem seus empregos de anos e, a anos luz ainda da aposentadoria, se veem sem nenhuma renda.

Os salários por aqui foram classificados como o terceiro mais mal pago da Europa. Surprise, suprise!

A inflação. Ah, não precisa ser uma economista renomada para entender disso. Basta ir ao supermercado toda semana e ver que o carrinho de compras está cada vez mais vazio.

Uma coisa que me surpreende muito nos italianos é o interesse deles por política. Não me lembro de ler a respeito ou nem menos ter política como assunto numa roda de amigos no Brasil. Aqui é muito comum. Aliás, você se sente mal se não sabe o que está acontecendo. Ser informado é uma questão de sobrevivência!

Cada dia é uma taxa nova. Hoje li no jornal que levaram para a câmara um projeto, com a magnífica idéia de criar uma taxa sobre os animais domésticos, ou seja, se você tem um animal de estimação seria obrigado a pagá-la. Era só o que faltava! Vocês sabiam que aqui se paga taxa (imposto) por usar a sua TV. Sim, todas as pessoas que possuem um televisor devem pagar esse imposto anual.

Esse é o panorama geral da Itália no momento. Agora vou tentar explicar de forma clara como funcionam os vistos para brasileiros.

Infelizmente, ao contrário da Irlanda, a Itália não oferece muitas opções. Não existe um programa de aupair regularizado no país. Normalmente, as famílias que optam por contratar uma aupair por aqui preferem candidatas europeias justamente porque não querem se dar ao trabalho de lidar com vistos, documentos etc. Então, se você não tem cidadania europeia, eu diria que é praticamente uma missão impossível. Outra coisa que faz com que muita gente prefira fazer o programa nos EUA ou na Irlanda, por exemplo, é a questão financeira. Normalmente se paga entre 300,00 – 400,00 Euros (máximo).

Uma vez eliminada a possibilidade de ter um visto de aupair vocês podem me perguntar: “então é só entrar como estudante e trabalhar como aupair part-time”. Seria uma grande idéia se funcionasse. A Itália não concede visto de estudo a não ser que seja a nível universitário, ou seja, um curso regular de italiano não te dará a possibilidade de requerer um visto de longa duração.

E ser universitária na Itália requer muita força de vontade e muito dindim também. A taxa anual da universidade não é cara se compararmos com aquilo que pagamos em uma faculdade privada no Brasil, o grande problema é toda a documentação necessária para que você seja aceito. Primeira coisa, você deverá traduzir históricos e certificados escolares (maiores informações podem ser encontradas no site do consulado italiano no Brasil: http://www.conssanpaolo.esteri.it/Consolato_SanPaolo). No meu caso, eu já tinha concluído o curso superior, então poderia fazer um tipo de especialização aqui, mais dois anos. Para isso eu teria que traduzir uma lista gigantesca de documentos, incluindo o conteúdo programático do meu curso que tem cerca de 120 páginas. Fiz um orçamento e o valor me fez quase cair da cadeira: R$ 6.000,00. Sem contar que é um processo muito longo e burocrático. Enfim, tive que desistir dessa possibilidade também.

Ok, me restava o visto de trabalho. Por que não? Fui atrás de informação e eis que descubro um sistema de sorteio governamental. Uhuuu! Para conseguir o tal visto, você deve estar atento ao Decreto Flussi.  O governo libera quotas anuais para estrangeiros, subdivida por nacionalidade. Como vocês podem imaginar o número de candidatos é sempre superior ao número de vagas. Então, esse processo se transforma em uma loteria. Mais informações sobre o programa pode ser encontrado na internet http://www.interno.it/mininterno/site/it/sezioni/sala_stampa/notizie/immigrazione/00000038_2012_03_21_flussi_2012.html.

Enfim, o meu objetivo não é convencer ninguém a não vir pra cá. Apenas quero mostrar todas as possibilidades e compartilhar as informações que eu adquiri durante os meses em que estava procurando uma forma de morar aqui legalmente.

E com certeza tem uma pergunta solta no ar “Ué, e como você conseguiu entrar na Itália, Alessandra?”. Simples assim: me casei com um italiano! Óbvio que não me casei só pelo visto, mas se existissem leis mais flexíveis, com certeza teria esperado um pouco mais para dar este passo na minha vida. Mas como diz o ditado, tudo fica bem quando termina bem. Eu estou casada e imensamente feliz ao lado do meu grande amor. Existem happy endings na vida real também!

A buRRocracia italiana

19 Set

Quem reclama da buRRocracia brasileira é porque não conhece a italiana. Além da lentidão nos órgãos públicos, outra coisa que dificulta, e muito, é a falta de informação.

Quando estava na Irlanda fui ao consulado italiano pelo menos três vezes, buscando uma forma de viver na Itália legalmente. Lembro que em uma das vezes fui me informar sobre o visto de estudo e aproveitei e contei a um simpático senhorzinho que namorava um italiano e, por isso, gostaria de me mudar pra lá, eis que ele sugere a solução mais fácil nesses casos “Se casa, minha filha”. Se eu estava ali pedindo informações sobre visto de estudo, acho que era porque não estava cogitando essa opção ainda. “Hello?”

Estudar na Itália custa caro. Muito caro! E não é nem pela taxa paga à universidade, que é baixa se comparada com o que pagamos no Brasil. O grande problema nesse caso é traduzir todos os documentos para o italiano. No meu caso, procurei um curso que seria mais ou menos como uma pós para nós. Para isso, eu teria de apresentar Diploma, Histórico Escolar e Conteúdo Programático do curso de Letras. O orçamento inicial para a tradução do Conteúdo Programático (105 páginas) foi de R$ 12.000,00. Eu entrei em estado de choque quando vi o valor e pensei que a pessoa tinha se engando, de repente era R$ 1.200,00. Não, estava correto! Depois de muito chorar, o valor da tradução juramentada ficou em R$ 9.000,00 e da simples R$ 6.000,00. Ou seja, missão estudo abortada! Isso sem acrescentar todos os outros gastos que teria.

Outra opção seria o visto de trabalho, mas, nós brasileiros, temos que contar com o “Decreto Flussi”. É um sistema de quotas anual (bem, não é bem assim, o último levou dois anos para ser aprovado) no qual o governo libera um certo número de vagas para diversas nacionalidades. Por exemplo, se o governo decidiu que em 2012 abrirá 35.000 vagas, 1.500 serão para africanos, 1.000 para angolanos, 2.000 para brasileiros etc. Esse sistema funciona um pouco como loteria, pois existem sempre muito mais candidatos do que vagas. Então, – pelo que eu entendi – serão contemplados os que forem mais rápidos. O governo estabelece uma data para a inscrição on-line, os primeiros inscritos (caso preencham os requisitos) conseguirão o visto. Outra coisa que complica nesse processo é que no ato da inscrição você já tem que ter um emprego. Você terá que preencher os dados do seu empregador e ele terá que pagar uma taxa. E a pergunta que não quer calar, meu caro leitor, é: quem fará isso por você? Quem vai contratar uma pessoa sem conhecê-la? Pior, quem vai pagar uma taxa sem saber se o futuro empregado (colaborador) será “sorteado”?

É triste, mas é assim que funciona. As leis da Itália são confusas e, na minha opinião, injustas. O governo dificulta muito a entrada de estrangeiros no país e, com isso, só colabora com o aumento da ilegalidade. A Irlanda deveria ser seguida como exemplo. Leis claras e oportunidade a todos de permanecer no país legalmente.